Ainda sobre um bicentenário…

O ano de 2025 marca um momento especial para a Universidade de São Paulo (USP) e para a comunidade jurídica no país. A Biblioteca da Faculdade de Direito, localizada no Largo de São Francisco, celebra 200 anos. Ainda no ritmo de comemorações, conversamos com quem conhece bem cada canto deste espaço: Maria Lucia Beffa, bibliotecária da Faculdade de Direito desde 1990 e diretora da biblioteca desde 2002.

Ela é testemunha do processo de informatização do acervo e das transformações tecnológicas que adentraram as bibliotecas no Brasil na virada do século. “No decorrer dos anos, começamos a ter e-mail, página para a biblioteca e a parte da tecnologia, modificando completamente o dia a dia da biblioteca”, lembra.

A bibliotecária e pesquisadora (Beffa participa frequentemente de congressos e publicações científicas na área) ressalta que o acervo de cerca de 500 mil volumes começou a ser formado durante a criação da primeira biblioteca pública de São Paulo, em 1825. “A história da biblioteca começa logo após o Brasil independente, quando foi necessária a criação de universidades para preparar o país com pessoas para a administração… então começou-se a discutir a criação das universidades.”

No processo de formação e gestão do acervo, Beffa chama a atenção para o trabalho de seus antecessores, ressaltando a importância da preservação do espaço ao longo dos anos. “Muitos bibliotecários que cuidaram da nossa biblioteca ao longo dos anos são referências na história do Brasil, como Dom José Antônio dos Reis, o primeiro bibliotecário, que era um religioso que cursou Direito. Ele realizou o primeiro inventário da biblioteca”, comenta.

A diretora da biblioteca conta que, até a década de 1930, apenas homens trabalhavam na biblioteca. A partir desse período, mulheres passaram a atuar em trabalhos técnicos e na própria direção do local. “A primeira mulher que ocupou o cargo de bibliotecária-chefe foi Celina Muniz. Antes dela, Conceição Negrão chegou a atuar como chefe substituta”, analisa.

Desafios

Maria Lucia Beffa comenta que é comum a presença de itens raros, com poucos exemplares conhecidos, armazenados na biblioteca, o que impulsiona a ideia de projetos que auxiliem os pesquisadores em todo o país. “Nossos desafios atualmente são a preservação do patrimônio histórico, pensar o futuro e como dar acesso a todo esse conhecimento acumulado, com projetos inovadores que possibilitem esse acesso, como a digitalização do acervo.”

Influência marcante na cultura jurídica, política e literária do país, uma nova sede vem ganhando forma. A ideia é marcar ainda mais a presença de um equipamento cultural de destaque no cotidiano da cidade. “Um sonho que está sendo realizado é a construção do novo prédio da biblioteca, que deve ficar pronto em dois anos. A ideia é conseguir reunir o acervo em um local único, evitando o deslocamento dos alunos de um espaço para outro. Teremos mais tecnologia, conforto, espaço para estudos individuais e em grupo, com horário de atendimento ampliado. Será um prédio moderno, impactando o Centro de São Paulo”, revela a bibliotecária.

O projeto contempla ambientes diversificados. No topo do prédio, haverá um café e um teatro, abertos à sociedade. O objetivo é que o novo local ajude na revitalização do centro da cidade, como ponto turístico.

Acervo e raridades

A biblioteca conta com 7 mil obras raras publicadas entre 1520 e 1799. Também preserva exemplares publicados após 1800, período referente ao início da impressão no Brasil, além de livros e periódicos estrangeiros preciosos.

Para Maria Lucia, a gestão de uma biblioteca histórica representa um grande desafio. “Olhando toda essa história, é bonito sentir o comprometimento de quem esteve à frente da biblioteca, não medindo esforços, recorrendo a tudo o que seu tempo oferecia para manter a biblioteca atualizada, cuidando desse legado.”

Foto: Reprodução/Unsplash.

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